Cerveja movimentou R$ 13 bilhões no último ano com força no consumo fora do lar
O mercado de cerveja segue forte no Brasil. Segundo dados dos institutos de pesquisa do setor de foodservice (alimentação fora do lar), como a CREST (Consumer Eating Share Trends), realizado pela Gouvêa Inteligência, Wise Sales, plataforma de inteligência de mercado do segmento, e do Instituto Foodservice Brasil (IFB), a categoria movimentou aproximadamente R$ 13 bilhões no acumulado de 12 meses até junho de 2026, registrando crescimento de 17% em comparação ao mesmo período do ano anterior. E que a cerveja está presente em 11% dos cardápios do foodservice brasileiro sendo que os bares concentram maior participação no consumo.
Apesar do avanço em valor, o volume de ocasiões de compra apresentou retração. Foram mais de 369,2 milhões de transações no período, uma queda de 3% na comparação com o acumulado até março de 2025. Em relação aos canais de consumo, os bares lideram a preferência, concentrando cerca de 33% das ocasiões, seguidos por supermercados e hipermercados, com 15%.


O levantamento indica que a cerveja permanece fortemente associada a momentos sociais e de alimentação, principalmente em ocasiões noturnas, somando 60% do consumo da bebida. Os principais fatores que impulsionam a escolha pela cerveja estão relacionados à conveniência, apontada em 54% dos casos, e ao hábito, citado por 53% dos consumidores. O fator hábito, inclusive, apresentou crescimento de 14% na comparação com o acumulado até junho de 2025. Já o público consumidor está mais concentrado entre pessoas de 35 a 59 anos, faixa etária responsável por 66% do consumo, e os homens representam a maior parcela, com participação superior a 61%.
Cerveja ganha espaço nos cardápios
Além da presença nos momentos de consumo, a cerveja também mantém relevância nos bares e estabelecimentos de alimentação. De acordo com a Wise Sales, a bebida aparece em 11% dos cardápios do foodservice nacional.
Na análise regional, o Sul lidera a penetração da categoria, com cervejas presentes em 14% dos cardápios, seguido pelo Sudeste, com 13%, Centro-Oeste (9%), Nordeste (7%) e Norte (5%). Os tipos de estabelecimentos que mais oferecem cerveja no cardápio são pubs e cervejarias, com 43%, bares (31%) e restaurantes mexicanos e latinos (30%), seguidos de restaurantes alemães (29%), pizzarias gastronômicas (28%), restaurantes portugueses (26%), estabelecimentos de culinária árabe (23%), churrascarias (17%), pizzarias (12%) e hamburguerias (12%).
O Portal Mesa de Bar bateu um papo rápido com Ingrid Devisate, vice-presidente executiva do Instituto Foodservice Brasil (IFB). Segundo ela, os dados dessas pesquisas do setor reforçam o papel da cerveja como uma das bebidas mais associadas à socialização e às experiências gastronômicas, especialmente em ambientes fora do lar.


Qual a sua percepção sobre esse crescimento do consumo de cerveja?
O crescimento é real, mas precisa ser qualificado. Nos últimos doze meses encerrados em junho de 2026, o gasto com cerveja somou cerca de R$ 13 bilhões, alta de 17% sobre o mesmo período do ano anterior, com mais de 369 milhões de transações. Só que esse volume de transações caiu 3% na comparação com o trimestre anterior. Ou seja, estamos gastando mais em cerveja, mas não necessariamente bebendo com mais frequência. O que sustenta esse crescimento é o hábito, que aumentou 14% como driver de consumo, e a conveniência, presente em 54% das ocasiões. É um consumo concentrado no jantar, 60% das ocasiões são refeições noturnas, e num público de 35 a 59 anos, que responde por 66% do consumo, majoritariamente masculino, 61% do total. É um consumidor fiel à categoria, mas mais seletivo em quando e onde consome.
O segmento de cervejas artesanais está passando por um momento difícil, muito por conta do preço final, impulsionando o consumo das cervejas mainstream. Como isso impacta o mercado?
O segmento artesanal está enfrentando o mesmo desafio que qualquer categoria de maior valor agregado enfrenta em ciclo de aperto no bolso do consumidor: quando o orçamento aperta, a decisão de compra migra para marcas de escala, que sustentam preço mais competitivo justamente pelo volume de produção. Os nossos dados de cardápio ajudam a entender onde essa disputa se concentra. Cerveja está presente em 11% dos cardápios do foodservice nacional, mas essa presença varia muito por tipologia. Em Pubs e Cervejarias a penetração é de 43%, em bares é 31%, no alemão é 29%, no português é 26%. São justamente esses formatos, mais identificados com cultura cervejeira e menos com preço de entrada, que dão ao artesanal o espaço que o mainstream não disputa. Não é o fim do artesanal, é um momento de reposicionamento: menos concorrência direta de preço, mais aposta em ocasião, harmonização e tipologia certa de estabelecimento.
O que essa pesquisa revela sobre o outro lado da moeda, ou seja, o consumo caseiro. Muita gente está deixando de sair e consumindo em casa.
Sim. É importante olhar para os dois lados da moeda. O foodservice de fato cresceu, cerveja está em 11% dos cardápios nacionais, com destaque para o Sul, que lidera a penetração com 14%, seguido de perto pelo Sudeste, com 13%. Mas o consumo doméstico também ganhou espaço relevante, puxado pela conveniência, que já é o principal driver de compra da categoria, presente em 54% das ocasiões. Faz sentido: consumir em casa custa menos e envolve menos fricção do que sair. Bares seguem concentrando a maior fatia do consumo, cerca de 33%, mas super e hipermercados já respondem por 15%, o que mostra que parte relevante da ocasião de consumo está no varejo, não no foodservice. Para o setor, o recado é claro: o diferencial competitivo tem que estar na experiência que a lata em casa não entrega.
Os bares e similares estavam contando com um maior consumo de cerveja por conta da Copa do Mundo de Futebol, o que não aconteceu como esperado. Isto implicará em um impacto nos números do setor?
A expectativa do setor era de um efeito Copa mais forte sobre bares e restaurantes, e isso não se confirmou na intensidade projetada. Os próprios números ajudam a explicar: mesmo com R$ 13 bilhões movimentados e alta de 17% em valor no período, o volume de transações caiu 3%, e o consumo segue concentrado majoritariamente à noite, em refeições, e não necessariamente em torno de jogo. É um aprendizado importante: grande evento esportivo garante audiência recorde, mas não garante automaticamente ocupação recorde em bares. Com 54% das ocasiões de consumo puxadas por conveniência, o consumidor tem hoje alternativa de custo mais baixo em casa, e isso comprimiu parte do resultado que o trade esperava capturar durante o período da Copa.
Quais seriam as perspectivas do setor de foodservice para o restante de 2026 e para 2027?
Para o restante do ano, esperamos estabilidade com crescimento moderado em valor, sustentado por hábito, que já cresce 14%, e conveniência, presente em 54% das ocasiões, mais do que por expansão de frequência de consumo. O mapa de penetração regional mostra onde está a fronteira de crescimento: Sul e Sudeste já estão com 14% e 13% de presença no cardápio, mas o Nordeste está com 7%, o Centro-oeste com 9% e o Norte com apenas 5%. Minha aposta para 2027 é que parte relevante do crescimento do foodservice vai vir dessas regiões ainda subpenetradas, e das tipologias que já mostram afinidade natural com a categoria, como mexicano e latino, com 30% de penetração, pizzaria gastronômica, com 28%, e árabe, com 23%. Quem entender esse mapa e investir na experiência que a lata em casa não replica vai capturar a próxima onda de crescimento.
|



